terça-feira, 13 de maio de 2008

voto de cada manhã

meu rei, meu menino deus. meu ideal de beleza, de luta. o direito dele é o meu direito.
o inimigo dele é meu inimigo. ele não é mais ele, ele é eu. já somos um, mas eu não sou ele.

e então, eu acordo, respiro e faço meu voto do dia. não morrer, não me deixar morrer.. olho para trás, para meu passado, e me vejo herdeiro de um legado de lutas e conquistas. me vejo herdeiro de um voto antigo, feito pelos meus antepassados, voto de não deixar morrer minha descendência (logo não posso me deixar morrer) tampouco aqueles que se encontram na trincheira comigo. o voto guerreiro é revivido e reafirmado a cada manhã, ao nascer do sol, esse deus da guerra, do calor e da energia, que mesmo encoberto por nuvens nos ilumina. a trama da batalha é, dia após dia, mês após ano, década após século, cada vez mais detalhada, aperfeiçoada, minunciosamente diluída para dominar e vencer cada vez mais eficientemente. logo, as estratégias de combate e resistência devem ser também cada vez mais sensíveis a isso, ao mesmo tempo que não devem cair nas ciladas do desarraigamento espiritual.


sou herdeiro do voto. meu corpo ganha vida quando vive o voto. me re-conheço e re-conheço meu inimigo quando ritualmente realizo e revivo meu voto. Meu Deus é o Guerreiro, e o Deus de meu Deus é o Criador, o Verbo que se funda e se funde ao se pronunciar. Meus antepassados fizeram o voto com esses Deuses, e eu devo fortalecer essa corrente, pois sou o elo por excelência hoje, não por ser melhor que os outros, mas porque simplesmente hoje eu sou o elo.


sou herdeiro de uma tradição guerreira, e minha genealogia mostra que meus antepassados estiveram na revolta dos malês, minhas antepassadas lutaram nas revoltas dos Haussás e dos escravizados no campos e cidades. um dos meus antepassados era mulçumano, outro descende de Ogum, outra militou nos feudos portugueses, outros foram presos, subjugados, mortos pelas lutas empreendidas. herdo isso no meu espírito, e meu espírito não aguenta mais ficar calado.


meu voto me prova que minha razão desconhece o verdadeiro passado das coisas e das sociedades. meu voto me faz ver a minha esperança no amanhã.



saravá.






Nenhum comentário: